Por vezes, questiono-me o que ainda sinto por ele... Não tenho uma resposta concreta... Sei que não era feliz, sei que aquilo que ele me oferecia todos os dias no que toca à parte afetiva era nada... Como se ele fosse autista no campo sentimental... durante muitos anos não sei se não quis ver, se não foi verdadeiramente mostrado... Tento tantas vezes fazer retrospectivas e não consigo entender o que me escapou... Será que já não me lembro, ou será mesmo que verdadeiramente nunca existiu? Gostava de ter estas respostas para entender o que sinto cá dentro, o que me faz ainda estar tão presa ao nada... A segurança, o hábito... Amor? Como se sabe o que é amor, num momento como este? É como se quisesse voar e estivesse frio lá fora, aqui não é quente, mas lá fora deve ser mais frio. Vejo grades à minha volta e não sei se a porta existe, se eu não a quero ou não a consigo abrir... Olho para ele, está tão distante, quase como se não o conhecesse... olho para mim e não sei o que quero, não entendo como se faz, como se solta de algo que não nos faz feliz, mas que é o que conhecemos como vida e com o qual teremos de viver até ao fim. Os filhos criam raizes, para o resto da vida... Como se solta de algo que tem as maiores raizes do mundo? Como se diferencia, o casal dos pais? Queria deixar de ver, deixar de falar, para entender... Não posso. Tenho uma ferida e não posso remover o objecto causador da mesma, deitá-lo fora. Não, tenho de olhar para ele e sentir respeito e cordialidade, onde eu só queria não sentir nada. Aperta a garganta, embrulha o estomago e sinto a injustiça, e zango-me com ela, com a vida, com aquilo que tenho que enfrentar sem forças tantas vezes para dizer o que quer que seja. Sinto que fui assaltada, roubaram-me a minha vida, sei que ela não era perfeita, mas era a minha, aquela que dediquei, sangue suor e lágrimas, aquela que lutei para ter e agora a vida diz, ups, enganei-me, não deveriamos ter ido por aqui. Agora vira à direita. À Direita? E o que há lá? E o como fica o que está para trás? Onde guardo, o que deito fora? Ai, o que esta noite me fez.